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Qual a sua memória mais antiga?

A verdadeira medida do tempo de vida não são os anos acumulados; mas de quantas coisas nesses anos podem-se recordar.

Dizem que a memória é a alma do passado. Quando recordamos nosso passado, uma vida inteira é como um dia; os traumas e complexos são dissipados.
Do nada me veio essa pergunta: Qual a sua memória mais antiga? Comecei a meditar nos meus tempos de criança, então resolvi o que a muito vinha pensando, escrever as coisas que vi, ouvi e fiz de formas que, elas não estão relacionadas pela ordem cronológica mais aleatória ao aspecto.
Com cinquenta e tantos anos, tenho lembranças antigas, porem vivas que parecem ter acontecido ontem. Nasci nos idos de 50, em Bacabal, era o terceiro filho de uma prole de cinco. Por motivo de negócio, mudamos para a cidade de Codó, ambas no MA. Na época era o caçula.

A viagem
Não havia estrada naquela época. O roteiro consistia em descermos pelo rio Mearim até a baía de São José onde faríamos uma conexão (em vários dias), para então subirmos o rio Itapecuru até Codó. Foram mais de 20 dias de viagem. Lembro-me está em pé com as mãos segurando nas grades, olhado para a água enquanto a lancha fazia ondas barrentas, de rio acima, que caudalosos, invadia a floresta densa (parece romântico, mas foi assustador e fiquei anos tendo pesadelos repetitivos onde eu me via afogando enquanto descia nas águas barrentas de um rio). Hoje a distância entre Bacabal e Codó via rodoviária é de apenas 127 km. Ao passo que 20 dias navegando num desses navios de minérios da CVRD pode-se chegar à China.

As manchetes da época
Fidel Castro toma o poder em Cuba com a ajuda de Che Guevara. A URSS queixa-se que os EUA violam o seu espaço aéreo. Conflito político do Canal do Suez. Tratado de Roma, assinado por 6 países, cria a chamada Comunidade Econômica Européia. Eleva-se a mais de 500.000 o número de combatentes norte-americanos no Vietnam. Morrem 2 milhões de pessoas devido à fome no Biafra. Em Paris 8 estudantes imolam-se em fogo, em sinal de protesto. Na Romênia morrem 200 pessoas devido às inundações. No Japão são destruídas 50.000 casas devido ao tufão Anita. No Paquistão oriental um ciclone varre o delta do Ganges, causando cerca de 1 milhão de mortos. Tudo isso de 55 a 70. E ainda assim, dizem que hoje em dia, vivemos um apocalipse. Ô raça sem memória!

Meu habitat
Nada disso foi passado com veemência na época para mim. Minha vida era ser criança ribeirinha, estudante em colégio público (não existia os particulares) com aprendizado em latim e francês. Cantávamos todos os dias o hino Nacional e do Maranhão.
Tenho bem nítido na memória, quase que como uma pintura, as correntes que as águas da chuva formavam nas sarjetas e nelas junto com meus irmãos, colocávamos pequenos barquinhos feitos de papel.
Gostávamos de explorar a pequena mata da “agua fria” nos fundos de casa. De volta trazíamos peixinhos que pescávamos em cofos de palhas no pequeno riacho e os colocava dentro do poço. Era o nosso aquário. Sempre depois do almoço ia lá vê-los nadando.
Lembro que tinha um cachorro que se chamava diamante, era grande e peludo tipo pastor alemão. Ele tomava das minhas mãos o caderno de dever da escola para brincar comigo. Vez por outra, nadávamos juntos no rio. Era uma amizade e tanto. Diamante morreu com 11anos de idade. Todos nós choramos no seu enterro lá no quintal da nossa casa.
As roupas e calçados eram feito por encomenda. Não havia lojas de departamentos, só lojas de tecidos que atendia no balcão. Isso coincidia às vezes de estarmos vestindo da mesma fazenda parecendo farda. As cuecas eram com botões e nossa roupa de dormir era chambre feito de saco de algodão que vinha com trigo dos EEUU (aliança para o progresso). Também vinha de lá, leite em pó – conhecido como “leite do padre” por que era distribuído pela igreja. Era forte de dar diarréia na gente.
Não tinha supermercado, ia-se toda hora na mercearia (lá tinha de tudo desde o tecido até o sabão) fazer pequenas compras. Quando minha mãe me mandava comprar camarão ou macarrão era um dilema eu sempre esquecia qual era o certo e trazia normalmente o errado. Bacalhau em caixas de madeira, camarão zebu seco em cofos de palhas, jabá condicionados em fardos de 100 kg, era comida de pobre. O vinagre vinha em barris de carvalho. Não havia óleo comestível, usava-se banha da gordura de porco em latas de 18/L. tempo depois apareceu o primeiro óleo comestível de coco babaçu. O alho vinha em engradados e a cebola em tranças enormes de palha. O café era comprado em grãos crus e torrado em casa (com um pouco de açúcar) depois socado no pilão depois apareceu a maquina manual de moer que moia também carne e tempero. A carne de boi se comprava no mercado em peças inteiras. O peixe era comercializado na beira do rio dentro das canoas. Só as galinhas, perus, capotes, (a comida especial de domingo) quase não tinham lugar certo, a venda era ambulante. Mas todo mundo tinha sua própria criação em casa. A sobremesa era a marmelada, vinha em lata de 1000g com vários sabores. Os biscoitos eram os champanhes embalados em latas especiais decoradas.
Não tinha água encanada o abastecimento vindo do rio era feito em ancoretas e transportadas em jumentos.
Não havia também saneamento básico, as casas tinham fossas. Vez por outra alguém que ia a sentina (casinha que ficava fora no quintal), fazer suas necessidades fisiológicas ao acender um cigarro de palha, inflamava o biogás (resultado da decomposição de biomassa), causando combustão explosiva devido ao seu alto teor de metano. Infelizmente não havia placa sinalizadora de proibido fumar. Não havia EPI (Equipamento de Proteção Individual) para nada.
O fogão era a lenha e a geladeira com seu inseparável pingüim, a querosene. Os copos e as louças eram guardados em petisqueiros. Relógio de pulso era luxo, só havia o de madeira fixo na parede ao lado do quadro da última ceia. A eletricidade (usinas termelétrica a diesel) só funcionava das 18 as 22 h., e só servia para iluminação das ruas e nas casas. Fora isso a luz era de petromax a querosene. Tudo mais era manual.
A farmácia fazia remédio mesmo e tinha um que se chamava “pílula contra” servia para tudo, inclusive para curar cavalo. Tratamento de verme não era coisa que um médico tinha que receitar não, nossas mães faziam isso uma vez por anos com toda a garotada. Era uma dose única chamada de “tiro seguro” à base de azeite de mamona, para ingerir o pai segurava o moleque no chão e a mãe abria a boca com uma mão e empurrava a dose de goela abaixo com a outra. Depois era só esperar três dias de defecação freqüente botando as parasitas inteiras para fora e tudo voltava ao normal.
A cesta de natal era encomendada com antecedência pelo representante da Hermes e chegavam pelos DC-3 da Real Viação Aérea. Os mesmos DC-3 que aterrissavam no campo de aviação (aeroporto) para buscar candangos para trabalhar na construção de Brasília.
A sociedade era dividida em três camadas cada uma com o seu clube representativo – os ricos e autoridades iam para o Garapary; os humildes e de cor tinha o COC – Centro Operário Codoense e para a classe media e comerciários a União Artística. Fora isso no baixo meretrício, todos os homens da cidade se nivelavam e se entendiam com respeito.

A vida em família
Meu pai era comprador de babaçu e de couro de animais. Com ele aprendi a classificar todos os tipos de couro desde um simples couro de boi, de cabra até ao de uma jaguatirica (um tipo de pantera), gato maracajá ou mesmo da grande jibóia. Eles eram banhados em veneno para não dar polia, depois de seco, dobrados e armazenados, aguardavam o dia do embarque com destinos a Fortaleza via aérea nos DC-3 da Real.
Papai foi também delegado da cidade e eu tive a oportunidade de exercitar meu diploma de datilografia no cargo de escrivão. Eu era bom na maquina de escrever. Enquanto o queixoso contava a sua história, eu redigia na maquina de formas que ao terminar sua denúncia, a mesma estava pronta para ser assinada. Era divertido.
Com meu pai também fui cabo eleitoral na campanha de José Sarney para governador do MA (todas essas aventuras com meu pai foram antes dos meus doze anos). Viajando em cima de um caminhão, nosso destino era um lugarejo chamado cajueiro e a missão era impugnar a urna eleitoral visto que todos os votos dessa sessão eram do adversário. Era tarde da noite o caminhão que nos levava encima da carga parou de repente, o motorista subiu e mandou que nós descêssemos a jogada era impedir que chegássemos a tempo no destino. Fizemos o resto a pé e por volta das 15hrs já era consumado a anulação da urna. Meu pai conhecia muito de leis e foi fácil encontrar razões para isso. Mas enquanto papai fiscalizava no recinto eleitoral eu aqui fora era ameaçado de morte caso fizesse alguma coisa. Foi assustador. Um homem com um facão na mão me alertava para não falar com os eleitores.
Só para concluir esse fato, a missão que exercemos com êxito e coragem foi paga com a demissão do cargo de delegado. Traição do governo Sarney que tão logo assumiu, procurou expulsar todos os partidários de Mullet, Senador que o havia laçado ao governo e, de quem meu pai era cunhado (por afinidade – minha mãe havia sido criada em sua casa desde menina quando perdeu seus pais).
Papai tinha também uma criação enorme de porcos. Era algo bem estruturado lembro que vinha gente de toda parte fazer negócios e até fotografar as estruturas dos chiqueiros e pocilgas para divulgação em revista. Certa vez houve uma grande enchente e só de capados (porco castrado que se destina à engorda) perdemos uma media de 300 cabeças. Às vezes papai mandava matar um capado bem sevado para nosso consumo e mamãe aproveitava para exercer a sua misericórdia repartindo a carne com os vizinhos. Mamãe era costureira fina, fazia vestidos para as mulheres da sociedade e confeitava bolo para casamento, aniversário etc. nós dois tínhamos uma grande afinidade, conversávamos muito e ela fazia confidencia comigo.
Um dia ela estava grelhando bife de fígado de boi no fogareiro e conversávamos animadamente enquanto comíamos pedaços da víscera. Quando demos por conta havíamos comido todo o fígado do jantar.
Ela era muito católica se não tivesse fazendo nada, estaria rezando um terço após outro. Fomos todos consagrados para N.S. da Conceição conforme sua promessa. Dizia uma lenda que se a gente ficasse com um retrato da santa no peito olhando para o céu enquanto contava de 1 a 60 sem piscar, ela apareceria e então poderíamos fazer um pedido. Fiz várias tentativas mais nunca vi nada, nada mesmo. Desisti.
Minha mãe tinha um cuidado especial por mim eu sofria de bronquite asmática. Então tive uma vez para morrer e ela fez uma promessa pedindo que fosse passada aquela enfermidade para ela. Não sei, mas depois disso melhorei e não tive mais os ataques, entretanto ela passou a sofreu dessa asma ate poucos anos a traz.
Apesar dela, fazer parte das irmãs de Maria foi ela que me orientou para rezar somente para Jesus, quando um dia, reclamei dizendo que estava confuso com tanto santo protetor para lembrar na ora de oferecer minhas rezas.
Lembro de uma viagem que fizemos à cidade de monsenhor Tabosa (CE) de ônibus. Terra natal do meu pai. Ele havia resolvido nos levar para conhecer vovô e toda parentela. Ele tinha saído de casa sedo e nunca mais havia voltado era então uma viagem de reencontro com sua família. Aconteceu uma tragédia na ida. O ônibus (tipo bicudinha que carregava as bagagens encima) quebrou em plena subida na Serra Grande. E logo se via fogo por toda parte, todo mundo desceu apavorado e tentavam apagar o fogo jogando terra (sertão do Ceará não tem água). Papai desesperado deu um murro na vidraça (pára-brisa) do ônibus na tentativa de abrir espaço para jogar areia o resultado foi um profundo golpe no pulso que quase decepou sua mão.
Enquanto isso o povo esqueceu de mim destro do ônibus. Lembro que fui titubeando sozinho no meio da fumaça até encontrar a porta de saída onde alguém me pegou e sapecou lá no meio da piçarra.
No mais a viagem foi só alegria. Ainda lembro o rosto comprido e barbudo do meu avô. Sentado na cabeceira de uma mesa rústica e cumprida, ele dava as ordens e era muito respeitado. Sua fisionomia era de um bandeirante, ele se chamava Salustriano Monteiro - descendente de espanhol. Quando eu oro, acho que Deus parece com ele. Sabe, Deus é aquela fisionomia de alguém que respeitamos e admiramos muito, mas que vimos pouco e que fez parte de um passado ainda na nossa infância.
Certo tempo, meu pai passava por uma situação financeira muito difícil, daquelas que o marido vende a maquina de costura da mulher para comprar comida. Minha mãe sempre foi arrojada e de fé na flor da pelo. Ela então fez uma proposta para um senhor que tinha uma padaria perto de casa e que estava meio quebrada. Sem dinheiro mais com muita coragem não levando em conta o pessimismo de papai, assumiu o controle do negocio. Papai ficou no comando da produção e mamãe se responsabilizou em vender os pães. O que ela fez, foi inédito. Lembro que ela saia de casa em casa com um lápis e um caderno na mão formalizando os pedidos. Em menos de seis meses nossa padaria era a segunda em quantidade de sacos de trigo desmanchados por dia (era assim que se media o tamanho da produção de uma padaria). As compras de trigo e insumos eram feitas diretas de Fortaleza e alguns itens nós já revendíamos para pequenos produtores da região.
O negócio cresceu tanto que papai comprou um terreno na Rua da Areia (perto da praça do cinema) e construiu uma bela casa. Os móveis foram todos encomendados na marcenaria. Também comprou um rádio Philco Transblobo e uma vitrola pé de palito. Coisa de rico mesmo.

Minha vida social
Ao domingos pela manhã, ia com os irmãos ao catecismo e a tarde um bom vesperal com possibilidade de arrastar a asa a, Auristela - a mais bela, a mais rica, a mais pretensiosa e também a mais cobiçada garota da cidade. Ela fazia questão de ver todos os rapazes se matando por ela. Ô vida difícil!
Mas ela tinha uma concorrente para dividia o podium, embora diferente dela; era a Lúcia, também bonita e rica, cheia de ternura e desprovida de vaidade; as duas top-model faziam o equilíbrio entre os jovens conquistadores.
Nessa incitação, fui o único garoto que teve a ousadia de deixar a bela Auristela falando sozinha no meio da vesperal. Essa postura de “cara sério” me fez especial para ela. No entanto eu gostava mesmo era de “jogar pedrinha” com Lucia na casa dela. Nós ficávamos-mos horas jogando; sentados no chão, ela de blusa cavada de algodão branca, permitia-me generosamente poder contemplar seu lindo busto escultural. Aflição era quando acabava nossa hora. Ambas sofreram acidentes quando adultas. Auristela ficou aleijada, devido a um tombamento de carro. E, Lucia faleceu vítima de desastre aéreo no sul do MA.
Antes desses dois amores, tive uma namorada chamada Edna, filha da costureira. O amor é cego e certo dia, fui a casa dela na ora do jantar vestindo meu terno de marinheiro azul com listas braças nas bordas e falei com o pai dela sobre casamento. Foi uma loucura, pois o velho consentiu a mão da filha – nós tínhamos-mos por volta de 6 a 7 anos. Não me pergunte como acabou esse noivado precoce.
Outra vez, tive uma namorada (não recordo o nome), ela era mais alta do que eu, bonitona, e bem mais “velha” - já tinha 18, e estava apaixonada. Eu já trabalhava com meu pai na padaria, fazia de tudo um pouco e como os outros padeiros, eu tinha também uma freguesia que atendia a domicílio (era de praxe entregar os pães nas casas - Delivery), a casa dela era a ultima da rua e ficava na beira do rio. Bem cedinho eu chegava e ela ainda de chambre me esperava sentada na calçada; da ultima sacola que deixava em sua casa eu tirava um pão que tinha colocado a mais, então nós comíamos aquele pão ainda quentinho contemplando o rio. Fazíamos isso todo dia. Ela me adorava, falava coisas lindas para mim. Não sei que fim levou essa moça. Ela chorou muito no ultimo encontro quando falei que devíamos terminar nosso namoro. Desde então nunca mais fiz isso com uma garota. Deixava a coisa ir esfriando, esfriando mais não terminava, pois eu lembrava a aflição daquela moça comigo.
Eu não era muito de brincadeira, portanto meu irmão Baltazar (o mais apegado comigo) fazia pipas e carrinho de madeira e me dava de presente só para poder brincar com ele. Na época de São João nos saíamos de bicicleta e pelas ruas da cidade íamos derrubando tudo quanto era de fogueira armada na porta das casas.
Tornei-me um jogador de sinuca, de palito e quino (certo tipo de bingo). Certo dia um “carcamano” (era como chamávamos os árabes) perdia no palito e insistia em jogar e perdia mais ainda, foi então que ele se aborreceu, correu em sua casa pegou uma arma de fogo e tentou matar-me. Foi o fim do jogador de palito, nuca mais eu joguei.
Nessa de jogador e cara do mau, conheci uma garota diferente não era bonita mais tinha algo nela que mi atraia – seu modo de vestir, de falar, de se comportar, era de quem vivia um mistério, uma aventura. Ela era envolvente e terminou me convencendo que devíamos fugir, irmos embora juntos. Topei na hora, aventura era comigo mesmo. Combinamos tudo e na hora “H” no lugar marcado, seu pai foi quem apareceu no lugar dela com uma espingarda (daquelas carregada pela boca) vindo na minha direção e não conversou foi logo mandando tiro. Amigo, eu corria pra valer e debaixo do braço tinha uma garrafa de aguardente misturado com Coca-cola devido o sacolejo, a rolha estourou, o estampido soou alto e que susto levei pensado ser outro tiro. A garota foi deportada para Teresina (PI) e só viemos nos ver muitos anos depois já em São Luis. Ela tornou-se uma grande pára-quedista conhecida nacionalmente.
Duas irmãs uma bonita e outra simpática, eu queria a bonita, mas ela não dava chance e para enfrentar o desafio preferir me aproximar devagar, namorando a irmã simpática. Isso já durava três anos e não conseguia nada. Fazia serenata com orquestra e tudo na janela dela. A coitada da minha namorada pesava que fosse para ela. Nada dava certo no fim eu já queria cair fora, mas nem isso conseguia. Ô luta!
Chegava ao fim, o romantismo com a Lua e nas noites de sábado a turma fazia tertúlia no coreto da praça com nossos novíssimos toca-discos portáteis (a pilha) – só dava Roberto Carlos e os Beatles. Dançávamos o iê-iê-iê com as meninas vestindo mini-saia e meia de arrastão em paralelo às nossas calças boca de sino e cabelos alisados com gumex.
Nessa época morava uma moça com a gente que ajudava mamãe nos afazeres da casa. Aconteceu de um dia nós chegarmos aos finalmentes e ela engravidou. Papai não era homem de ver injustiça e ficar calado. Queria a todo custo que eu reparasse o erro casando com a moça. Mas mamãe pensava diferente e me colocou dentro de um trem e me envio para São Luis. Passado algum tempo, vim a Codó em férias e mamãe havia me dito que ela tivera uma filha e que tinha meus traços. Queria vê-la, mas ela tinha ido embora com a criança. Desde então nunca mais ela apareceu; com o tempo o resto da família veio de muda para São Luis.
Mas eu nunca esquecia que tive uma filha aos 16 anos. Sempre vinha na minha mente a lembrança dela, e a vontade de conhecê-la às vezes batia forte, queria saber dela, como ela era o que ela fazia a onde ela morava.
Já casado, nas duas vezes que Mariana engravidou eu torcia para que fosse mulher. Problema de consciência. Certo dia eu e Mariana tivemos uma briga, peguei o carro e sai por aí. Já era noite quando entrei em uma dessas chácaras onde tem de tudo, bebida, música e outros divertimentos. Estacionei, mas fiquei parado debruçado sobre o carro ainda chateado. Aproximo-se uma moça morena de cabelos nos ombros não era bonita, mas sua voz, sua maneira de falar desinibida chamava a atenção. Ela perguntou - o que você procura? Detraído respondi sem pensar: procuro uma filha que nunca vi. Engraçado disse, ela - eu também procuro um pai que nunca vi.
Não podia imaginar o que a vida estava para fazer comigo. E não deu outra, horas depois, nossas historias de vida coincidiam; cruzava em tudo, éramos pai e filha se encontrando no meio do mundo pela primeira vez, 20 anos depois. Incrível parece coisa de novela.
Nunca imaginei que você pode estar com uma mulher em um lugar desses e sem saber você corre o risco de está se envolvendo com uma filha sua bastarda. Encontramos-nos varias vezes e ficávamos horas conversando. Ela mudou de vida, casou, tem três filhos. Atualmente mora em São Paulo, é funcionaria da USP.

Minha vida profissional
Comecei a ganhar minhas primeiras moedas, como catador de cafuné. Tinha uma freguesia de senhoras que me contratava para “catar-cafuné”. Depois do almoço ia às casas para efetuar o serviço. E, consistia em coçar levemente a cabeça da freguesa para fazê-la adormecer, o pagamento era antecipado, pois assim que ela dormia, corria para a casa da próxima freguesa, se tivesse sorte catava numa tarde, uns três cafunés.
Mamãe foi minha inspiradora. Como eu fazia cafuné nela, com muito amor, ela me elogiava para as senhoras que ia aprovar as roupas. Vou revelar o segredo de tanto sucesso como “catador-de-cafuné”, enquanto coçava e massageava os cabelos, eu produzia um estalido de unha com unha, bem junto ao coro cabeludo. Elas achavam aquele somzinho irresistível. Pura tecnologia.
Eu acho que foi daí que começou em mim uma onda de querer fazer as coisas diferentes do que é. Até hoje gosto de quebrar paradigmas.
Passei um tempo vendendo doce do Ceará às famosas cocadas “coxa-de-moça” que meu tio Cícero trazia em fardos trançados de palhas. Era um trabalho duro andava a pé no sol o dia inteiro. Ele segurava a minha mão e praticamente era arrastado para acompanhar suas passadas largas.
À tardinha quando chegava em casa não via a hora de tomar “banho de cuia” (não tinha chuveiro) e o sabonete só se podia passar depois de ter esfregado o corpo por duas vezes com sabão de côco para tirar o grosso. Meu tio dizia que sabonete não foi feito para limpar e sim para perfumar. Na hora de dormir ele fazia graça comigo cantando uma musica esquisita: “É nariguite pati-pum, é nariguite pati-pum, é nariguite pati-pum”, eu achava graça e logo dormia. Ele mi adorava.
Na padaria era eu quem despachava todos os padeiros junto com meu pai a parir das quatro horas da manhã, todos os dias e durante a manhã ficava no balcão atendendo a freguesia. A tarde ia para a escola. Lembro dos caboclos, eles eram muitos desconfiados e nunca concordavam com o preço. Então dava o preço sempre para cima, para logo em seguida baixar para o normal, dando a impressão de que estava proporcionando um bom negocio para eles. Era tiro e queda, sempre fechava a venda.
Meu primeiro fracasso empresarial teve mulher pelo meio. Eu tinha um sócio e fabricávamos vinagre branco de álcool (com ácido acético) e vinho tinto (uma mistura de Cinzano com açúcar queimado). Vendíamos bem. Certo dia um dos meus irmãos me pediu uma quantia emprestada para ir a uma “festa”, emprestei e resolvi ir junto. Estando lá em meios a bebidas envolvi-me com uma mulher profissional (minha primeira vez) torrei todo dinheiro que havia comigo. Desde então as coisas ficaram difícil e terminamos fechando a fábrica. Mas não fiquei na mão, pois tinha um negocio de “avicultura” (criação de galinhas), vendia ovos inclusive para a padaria do meu pai.

Meu lado artístico desportivo
Gostava de cantar em dupla com meu irmão as musicas dos Vips. Quando chegava a semana da pátria eu participava dos desfiles estudantis na banda, era bom no tarol (instrumento de percussão com cordas).
No desportivo fui ponta esquerda razoável, mas como nunca tive fôlego suficiente para correr devido à asma, terminei como goleiro, menos razoável.

Os colegas
Tinha um que se chamava vitinho, ele trabalhava ao lado da nossa padaria numa moedeira de café que era do seu pai. O cara pegava no meu pé o tempo inteiro. Ele chegava para merendar refresco com pão na padaria e aproveitava para ler na porta da loja todos os meus apelidos que ele mesmo criava. Eu ficava uma fera, a lista crescia dia-a-dia. Lembro de alguns, lacraia, Zé buxinho, banana madura antes do tempo, quedim, bal... Eram muitos. Ele já promotor de justiça, morreu num desastre aéreo junto com Lúcia.
Lembro do waltinho, era magro e feio, mas eu fazia todos os seus gostos só para ele deixar eu me aproximar das suas irmãs.
Tinha o Figueiredo, era doido por um jipe venho, e me ensinava a dirigir, mas sem eu entrar no carro. É ele fazia a simulação de como passar as machas, frear, acelerar, eu fica ali prestando a maior atenção. No fundo eu olhava mais para a irmã dele do que para ele. E quando eu o chamava de cunhado, tinha que sair correndo o cara era brabo e bom de briga que só.
O Edinho era burro demais, ele sabia da sua deficiência e dizia: tenho que pedir a tua ajuda quedim, pois eu não entendo nada e não posso ficar reprovado. Eu então ficava hora ensinando ele. Resultado ele se formou e eu não.
Mas eu não me formei porque não pude. Não. Foi simplesmente por desafiar a própria vida tentando quebrar o paradigma de que só si vai onde os outros não foram, quando se faz o nosso próprio caminho. Pertinácia exagerada de um homem sem preconceito de aprendizagem escolar, em tempo em que tudo depende de um diploma.
Eu tenho dignidade pessoal de não ter títulos honoríficos ou diploma de bacharel. Meu saber é empírico - derivado de experimento e observação da realidade, sem caráter científico. E, me fez ser fiel, instruído, capacitado, zeloso e até inspirado por Jesus; "Não é o cérebro que importa mais, mas sim o que o orienta: o caráter, o coração, a generosidade, as idéias." (Dostoievski). É nisso que me baseio. Essa é a força que impulsiona minha sabedoria. Sabedoria que me orienta a usar a inteligência para o bem de todos.
Permitam-me contar um fato que está fora da memória de criança, mas é com base nesse assunto. Foi há uns cinco anos a traz quando fui a um congresso de lideres em Fortaleza. Na ocasião eu e um colega fomos apresentados ao um ilustre senhor lá das bandas de Salvador, por nosso líder. Ele começou a fazer as apresentações pelo meu colega que era uma porção de coisas. Duraram assim uns cinco minutos a narrativa. Acabando, ele então se virou para mim, pois a mão no meu ombro e disse: este aqui, é... É... É... Fez-se um silêncio e como ele tinha que concluir e não tinha nada para dizer a respeito, então disse: é o Clédio!
Nos quatro dias que se sucederam aquele senhor, toda vez que passava por mim sorria e apontando o dedo balançava verticalmente para mim, dizendo: “você é o Clédio!”.
Isso lembra uma passagem bíblica onde Moisés perguntou a Deus: se alguém perguntar quem foi que me enviou, eu não saberia dizer. Portanto diga-me quem é o Senhor para que possa responder a ele. E, Deus disse: “Eu Sou Quem Sou”.
Logo, como filho de Deus que sou. Nada serei e nem permitirei que façam de mim mais do que sou. Talvez sem querer eu tenha sido inspirado em um velho ditado popular que se falava naquela época em Codó: “Eu sou eu. E, bacurí é coco”.
Nesta circunstância me vejo com um aprendiz (de terceira até chegar de primeira) de Jesus, que teve experiências de vida que admite predicados (qualidade atributo) dele mesmo, não podendo, porém, eu mesmo ser predicado para mim ou outro.
Por fim, minhas atitudes junto aos neófitos, assim como aos prosélitos foram de instruir suas capacidades em dedicação ao que se dispõe. E, assim respondo a qualquer pensamento de degradar a organização educacional.

Alguns acontecimentos na cidade
Não sei a data mais lembro quando a cidade de Codó recebeu uma leva de imigrantes nômades? Ciganos? Não sei ao certo quem era aqueles homens altos barbudos vestidos com chambres brancos e sujos, morando em tendas com suas mulheres e crianças de cabelos longos e maus penteados. Nossos pais não queriam que nos aproximassem deles, diziam que eram perigosos. Lembro que tinham nas mãos grandes livros de capa preta e proclamavam coisas estanhas em alta voz. Ninguém conseguia expressar entender suas línguas. A cidade não tinha descanso até que eles se fossem. Esse medo gerou fruto da antipatia que tínhamos dos protestantes quando também pregavam nas praças com a Bíblia nas mãos. Era um pavor ouvir aquela profecia “Vocês vão todos para o inferno”. Podia sentir chibatadas na pele. Ficava apavorado com a idéia!
Na cidade havia umas pessoas folclóricas de apelidos engraçados: lembro do “Chico-Crista”, do “Dico-Cangalha”, do “Dico-Careca”, do “Gomador”, do “Barba-de-Perú”, do “Mata-Gato”, do “Bizuca”, do “Seu-Finim” do “Amigo-da-Onça”, do “Peba”, do “Bita”.
Tinha o “Seu-Macarrão”, o homem mais feio do mundo, feio de dar nó. Ele era muito alto, magro esquelético de nariz comprido rosto achatado, queixo pontudo, poucos cabelos, mas longos sempre assanhados pelo vento – não se podia dizer que ele era uma pessoa simpática, apesar de não gostar de falar, não mexia com ninguém e levava sua vida (num venda no mercado) assobiando o tempo todo, uma música estranha. Era sempre a mesma música nunca mudava.
Um dia alguém na cidade resolveu fazer uma aposta, para ver quem acertava o nome da música que seu Macarrão assobiava. Durou muito tempo e não se chegou ao consenso de qual seria de fato a música. Resolveram perguntar, formaram uma comitiva e foram à venda no mercado, mas ele não deu a mínima, não respondeu nada, ignorando a pergunta, continuava a assobiar aquela música intrigante.
Em meio à pobreza, havia o espírito comunitário. Seu Patrício um velho padeiro, tinha seu esquife comprado para a hora da sua morte. Ele o guardava em casa. Quando alguém morria lá no bairro, a família do defunto não esquentava com as despesas do funeral. Seu Patrício tinha a solução, ele prontamente emprestava o caixão e logo que podia a família enlutada trazia outro igualzinho. Se alguém se metia a, sabido para dar o cano no velho Patrício, todo mundo interferia, pois aquele caixão simplesmente era a garantia nas horas difíceis de falecimento naquela comunidade.
Do outro lado do rio, tinha uma pequena floresta repleta de pés de guabiraba - fruto carnoso e doce provido de um caroço duro e pequeno, como o fruto do figo. No seu tempo, todo mundo ia catar os frutos e passávamos o dia por lá comendo guabiraba e namorando as meninas de mato a dentro. Nove meses depois era uma fila nos cartórios para registrar recém-nascidos.
Vez por outra a cidade recebia forasteiros, pistoleiros, bandoleiros atraídos pela riqueza advindo das fabricas de tecidos e da grande plantação de algodão. Lembro de um chamado Valdemar, homem rude e opressor, matava por nada. Toda cidade o temia. Não havia quem não tivesse uma queixa dele. Eu mesmo não sei como, desagradei à filha dele na praça do cinema e ela ameaçou contar ao pai, isso me deixou vários dias inquieto apreensivo, dele vim a afrontar meu pai.
Morava entre nós um cara pacato, amável e querido por todos. Seu nome era Camilo. O destino cruzou suas vidas, o pistoleiro marcou um acerto de contas no bar da estação. A cidade ficou em pânico por causa de Camilo, ele nunca havia morto uma galinha e o bandido era profissional em sacar a arma. Camilo chegou primeiro, o bar estava vazio, o povo pela praça com as mãos na boca e os olhos esbugalhados a murmurar. Nisso o pistoleiro chega com sua tropa em um caminhão. Foi descendo e entrando no bar e logo se ouvia os estampidos dos tiros, nisso os capangas na carroceria do caminhão davam pulos enquanto gritava o nome de Valdemar. Houve um silêncio, Camilo saiu na porta do bar com a arma ainda em punho todo ensangüentado, ele cambaleava em direção a praça, o povo correu para socorrê-lo enquanto isso os capangas que haviam entrado no bar para comemorar, traziam o corpo falecido do pistoleiro Valdemar, deram meia volta no caminhão e sumiram.
A cidade fez uma música agradecendo Camilo, como herói. Outros pistoleiros passaram por lá e teve o mesmo fim, a morte. Codó não se rendia, era próspera e tornou-se uma cidade marcada pelos bandidos que davam o crédito que era do povo, aos macumbeiros. Essa luta fez com que a rodovia federal BR135 que veio a ligar São Luis a Teresina não passar por dentro da cidade. Codó ficou isolada a 17 km do eixo rodoviário. O comércio foi prejudicado. Os macumbeiros espertos e sagazes, aproveitaram a péssima logística escolhida para impor idolatria ao diabo, exu e outros de pé cascudos, como forma de ajudar nos negócios.
A macumba se profissionalizou em grandes terreiros dando fim as benzedeiras da mesma forma que as parteiras foram substituídas pelas obstetras com modernas salas em maternidades.
Atualmente Codó é conhecida nacionalmente como um dos centros avançados em umbanda e outras dezenas de omolocô. Vem gente de todas as partes encomendarem “serviços”.
O tempo atropela os fatos. Da agricultura e da indústria beneficente do algodão só restam lembranças. Os ricaços da época deixaram filhos nobres que por sua vez fizeram netos pobres. O êxodo para São Luis se deu com muitas famílias inclusive a nossa. Mas essa é uma outra história.
Hoje vivenciando os últimos valores, relembrei e registrei às primeiras coisas da minha vida.

Luiz Clédio Monteiro Filho
Casado com:
Mariana de Fátima Balby Araújo depois Monteiro
Pai de:
Bruno Balby Monteiro
Rafael Balby Monteiro e de afinidade,
Dandara Balby Araújo
Avô de:
João Pedro Figueiroa Baby Monteiro da parte de
Rafael Balby Monteiro e
Receba Pavão Baby Monteiro da parte de
Bruno Balby Monteiro
Irmão de:
Luiz Carlos Monteiro
Luiz Baltazar Monteiro
Luiz Sergio Monteiro
Vera Lúcia Monteiro e do adotivo,
Manoel Costa
Filho de:
Luiz Clédio Monteiro e de,
Maria de Nazareth de Brito Assunção depois Monteiro
Neto Paterno de:
Salustriano Monteiro e
Rita Monteiro
Neto materno de:
Sergio Assunção e
Mercedes de Brito
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